Notas para a reconstrução de um elo perdido

Por SELECT ART

O Teatro da Experiência pode ser lido na chave das Experiências (nº 2, nº 3 e nº 4) formatadas por Flávio de Carvalho entre os anos 1930 e 1950, para investigar aspectos da evolução humana e social. Definido (em texto publicado pelo autor na Folha da Noite de 11/11/33) como “um centro de observação e de pesquisas para criar coisas novas”, o Teatro da Experiência foi inaugurado em 15 de novembro de 1933 com a peça O Bailado do Deus Morto, escrita e dirigida pelo artista. O Bailado e o Teatro se confundem, podendo ser lidos como uma entidade única, que se pretendia livre e revolucionária, buscando não a representação da vida, mas uma intervenção literal no mundo. “Queremos demolir os velhos deuses, construindo uma nova estrutura idealística”, escreveu Flávio de Carvalho.

Ainda segundo o texto, o Bailado localiza a origem animal da ideia de Deus em um monstro mitológico que pastava entre as feras do mato. A peça teve trecho reencenado pelo Teatro Oficina Uzyna Uzona, na inauguração da exposição O Antropófago Ideal, curadoria de Kiki Mazzuccheli na Galeria Almeida e Dale, em São Paulo, em 17/8.

O protagonista, com inevitável associação ao Minotauro, é um homem com cabeça de touro, cercado por um coro de mulheres. Todos mascarados com capacetes de metal, construídos pelo artista. Em uma vertiginosa arremetida espaço-temporal, os fios do labirinto desse Minotauro do mato paulista vieram projetar-se nos cabos da traquitana analógica que movimentou a encruzilhada de ruas onde a artista Laura Lima encenou seu Balé Literal, em 29/6, no Rio. 

As aproximações entre o Balé e o Bailado são fecundas. Ambos constroem “estruturas idealísticas”, nas quais o palco e os elementos cênicos são tão ativos quanto os atores. Ambos almejam a integração total entre o teatro e o mundo. Ambos foram encenados, originalmente, uma só vez, em uma só noite. O Bailado foi interditado pela polícia após o primeiro espetáculo. O Balé foi a forma elegida por Laura Lima para montar, ao vivo e coletivamente, as obras que integrariam sua individual na Galeria A Gentil Carioca.

Mas talvez o elemento de maior confluência esteja no ápice dramático de ambas as performances. No Bailado, ele acontece quando a mulher vestida de vermelho e salto alto (descrita pelo autor como “mulher inferior”) entra em cena com um facão e corta o falo dourado do deus. Nada mais feminista. Na montagem de Zé Celso, a cena acontece em ritmo de funk carioca, com a sedutora vermelha cantando “Sou mulher do deus, sou mulher do deus”. Já o ápice do arco dramático do Balé de Laura Lima era o momento da “defenestração”, quando as obras – que desceram da janela do 1º andar de um dos edifícios da Gentil, enganchadas em cabo de aço – alcançavam o chão. O ciclo de transmutação dos objetos em “obras” se completava quando eles alcançavam o espaço expositivo, lá permanecendo suspensos por cabos durante todo o período da exposição.

O presente artigo apropria-se e manipula o título da série de textos publicados por Flávio de Carvalho no Diário de São Paulo, “Notas para reconstrução de um mundo perdido” (1957-58), buscando com isso reconstituir os elos entre dois artistas performáticos interessados na demolição de velhos deuses. Sem falar nas investigações de ambos sobre o que estaria implicado em uma modernidade tropical. Mas esses são outros quinhentos. A continuar.

Bailado do Deus Morto, peça de Flavio de Carvalho encenada pelo Teatro Oficina Uzyna Uzona, na abertura da exposição Flávio de Carvalho: O Antropófago Ideal (Foto: Denise Andrade)


Serviço
Bailado do Deus Morto, Teatro Oficina Uzyna Uzona
7/9 às 13h, inscreva-se em 11-3887 7130
Flávio de Carvalho: O Antropófago ideal
até 19/10
Galeria Almeida e Dale
Rua Caconde, 152 – São Paulo
almeidaedale.com.br

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