'Os artistas têm que se posicionar, sim, e não ter medo de errar', diz Zezé di Camargo

O cantor assume também que é sempre a favor das pessoas se politizarem

Por O Dia

Zezé Di Camargo
Zezé Di Camargo -
Zezé di Camargo é um homem que expõe suas opiniões e defende que artistas se posicionem, assim como defende que cada município tome a decisão final sobre o isolamento social. Em entrevista à coluna, ele conta que votou e continua a apoiar o presidente Jair Bolsonaro: "eu votaria novamente no Bolsonaro sem sombra de dúvidas".
Ao mesmo tempo, ele pondera que o presidente deveria ser mais polido e comenta a mania de perseguição do ocupante do Palácio do Planalto: "Acho que o Bolsonaro pensa que ainda está em campanha com uma mania de perseguição. Isso me preocupa muito".
Você acha que o artista, que antes de qualquer coisa é cidadão brasileiro, tem que se posicionar sobre assuntos políticos importantes?
Eu acho que sim. Ser um artista não exime ninguém de ser um cidadão. Antes de qualquer coisa, você um cidadão que tem que exercer os seus deveres como cidadão e cobrar seus direitos também como cidadão. Os artistas tem que se posicionar, sim, e colocar a posição dele sem medo de errar. Temos que ter nossas opções e mostrar o que pensamos. Fica muito fácil se esconder atrás de um escudo... "Ah, eu sou artista e não posso opinar...", muitos pensam. E aí as pessoas não vão saber quem você é verdadeiramente e o que você pensa. Os artistas têm que opinar, sim, e claro, se não se sentir à vontade de não fazer campanha, não faz. Eu sou sempre a favor das pessoas se politizarem, de saber o que é política para saber exatamente quando for cobrar e saber o que está falando.
Artistas foram pressionados, no período de campanha, a se posicionarem. Hoje, 2 anos depois, qual a posição do Zezé di Camargo sobre o atual governo brasileiro?
Ninguém foi pressionado. Acredito que tiveram alguns artistas que tomaram um lado. Aquele 'ele não' foi uma coisa absurda, fizeram uma campanha ferrenha contra um candidato que não agradava uma certa classe artística e fizeram um corpo a corpo. Acho que aquilo até motivou algumas pessoas a votarem exatamente contra aquele que a maioria do meio artístico pregava. O que que digo sempre? A gente tem que ter muito cuidado nesses posicionamentos, porque nem sempre o povo concorda com aquilo que você está pensando e quando você coloca isso com muita força, tipo um cabo de guerra, como aconteceu com 'ele não', o que o cidadão pensa: 'puxa... esses caras têm a vida boa, ganham muito dinheiro, são artistas, vivem bem, aparecem na televisão, a vida está fácil para eles' e aí acabam virando contra. Eu sempre dizia quando via essas campanhas: 'estão fortalecendo o candidato'. É como aquele ditado: quanto mais bate, mais forte fica. Eu não fui pressionado. Tomei uma posição, na época da eleição, a favor do Bolsonaro, porque eu não concordava com as coisas que estavam acontecendo no Brasil nos últimos anos, com os últimos governos. É bom lembrar que eu apoiei o governo da esquerda, apoiei o Lula e fiz até campanha porque acreditava na mudança da política, da estrutura, mas a gente não tem bola de cristal e não dá para adivinhar. A gente apóia acreditando que vai ser melhor para o Brasil e aí depois a gente tem uma surpresa desagradável. Enfim. Quando eu apoiei, fiz um vídeo e estava tranquilo e tinha a consciência de que seria o melhor para o Brasil. A situação no Brasil estava muito polarizada e eu achei que seria melhor para o Brasil no momento porque como estava não poderia continuar. A minha atitude não foi sob pressão. Foi de livre e espontânea vontade e não recebi nada. Foi muito tranquilo para mim.
Acha que artistas evitam se posicionar com medo de represálias?
Olha, existem maneiras de olhar muito diferentes das pessoas. Eu acho que o atual presidente, se fosse candidato, hoje, diante do que nós temos, diante das opções que nós temos e diante das atitudes de um congresso totalmente omisso ao que o povo quer, eu votaria novamente no Bolsonaro sem sombra de dúvidas. Claro que não concordo com a maneira que ele tem de conduzir certos assuntos, a maneira como ele usa a sua comunicação. Acho que o grande defeito do Bolsonaro é não usar a comunicação direito. Ele é brusco para falar, tem aquele jeitão de capitão: bateu, levou. É claro que eu não quero esse Bolsonaro. Quero um Bolsonaro mais polido, que sabe que realmente ele é o presidente que o Brasil tem hoje. Acho que o Bolsonaro pensa que ainda está em campanha, com mania de perseguição. Isso me preocupa muito. Mas, com as atitudes dele como presidente, de brigar contra a corrupção, de não montar o seu ministério baseado em troca-troca, é muito salutar no meu entender. Até que me prove o contrário, ele continua tendo o meu apoio ao governo dele e principalmente à pessoa dele. Acho que está um pouquinho perdido nesse momento de pandemia, mas tem muitas pessoas que querem tirar proveito dessa situação. Quanto pior, melhor e isso nos deixa preocupado.
Acredita que a Secretaria da Cultura não tem dado o socorro necessário a classe a qual representa durante esse período difícil da pandemia? Qual a sugestão que faria se pudesse aconselhar a atual secretária?
Sinceramente, eu não tenho conhecimento para responder com exatidão com respeito à secretaria da Cultura. Mesmo porque o nosso gênero musical independe de governo. Os artistas sertanejos vão lá, fazem os shows, recebem seu dinheiro e são privilegiados porque sempre tem muito público. Os artistas que mais dependem desse lado do governo são artistas que fazem teatro e cinema. São os produtores e aí eles fazem parte de uma classe que precisa ser olhada, precisa receber apoio. Eles vivem do incentivo do governo. A parte dos artistas sertanejos é mais do povo, do corpo a corpo, de ir para as ruas e cidades lá do interior de Alagoas, Minas e Paraná. Vão lá, fazem shows para umas cinco mil pessoas e ganham seu dinheiro e está todo mundo feliz. É uma postura totalmente diferente e talvez por isso os artistas não se empenhem tanto nesse assunto. Não tenho a mínima condição de avaliar o desempenho da secretária da Cultura, a Regina Duarte, e não tenho como opinar o que ela está fazendo ou não porque não me inteiro. Como disse, eu sou de um gênero musical que independe muito, que caminha pelas próprias pernas e então me considero um artista privilegiado. Falar de um assunto que você não tem conhecimento seria leviandade da minha parte, apesar da minha área ser cultura. A música é arte, a música é cultura, mas a gente não convive muito com essa parte do governo. A gente, que eu falo, é o sertanejo em geral.
Você tem estimativa, até o momento, de qual o seu prejuízo durante a pandemia? Você acha que se atitudes federais tivessem sido tomadas logo no começo da pandemia, esse prejuízo teria sido evitado?
Não dá para falar em estimativa do nosso prejuízo. Tem que falar dos shows cancelados e eu sei que até o início da pandemia, nós, Zezé Di Camargo e Luciano, tínhamos gravado chamadas para 56 shows até agosto e esses shows já não existem mais. É um outro momento. Mas, é uma coisa que preocupa muito pouco a gente e não porque a gente tem grana, está rico. Pelo contrário! Não é nada disso, até porque temos muitas pessoas que trabalham com a gente, pessoas que vivem dos shows e a gente também, porque temos os nossos compromissos. Ninguém aqui está nadando em dinheiro. Mas o mais importante é saber que o Brasil está fazendo o que é preciso... Todo mundo ficar quietinho em casa, evitar aglomerações e o que for melhor. Temos que pensar no que for melhor para todos, para todo o país. Não pensamos nessa coisa do prejuízo e também não acho que o governo tivesse que tomar uma atitude antes. Se tivesse que tomar uma atitude antes iria tomar cuidado com a saúde das pessoas e não por causa de shows de artistas. Como já disse, o nosso meio caminha pelas próprias pernas. O governo jamais interferiria para ajudar uma classe, mesmo porque existem outras prioridades. O governo precisa ajudar as pessoas mais pobres, pessoas que não têm renda, pessoas que precisam trabalhar hoje para comer amanhã e acho que é por aí. Não mudaria muito.
Você acredita que o isolamento social ou lockdown são necessários e ajudam na diminuição da propagação do vírus?
Cada município tinha que ter a sua decisão. Quem realmente sabe o que acontece na sua cidade é o prefeito. Não pode ser uma ordem federal nem estadual. Vou te dar um exemplo: aqui em Goiânia. Existem cinco cidades próximas aqui em um raio de 100 KM e não tem um caso de coronavírus. Nem suspeito. Todas as cidades estão com as portas fechadas, todo mundo usando máscaras de proteção nas ruas e o comércio parado. Então, é complicado, porque as pessoas não estão com a doença, mas estão tendo prejuízos financeiros, sem comércio, sem empregos. Não pode ser uma via de uma mão só. Claro que São Paulo precisa ter uma atitude, o Rio de Janeiro precisa ter uma atitude, mas você não pode levar essas mesmas atitudes para uma cidadezinha do interior que o vírus não tem nem como chegar. De acordo como as coisas forem acontecendo, forem avançando, forem ficando complicadas, as atitudes teriam que ser tomadas em doses homeopáticas para resolver as situações. Nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno. Eu acho que essas atitudes radicais são perigosas.
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Neste domingo, no programa da Eliana, Patrícia Abravanel vai receber a dupla Zezé Di Camargo e Luciano. Gabriel Cardoso/SBT

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