Renata Bento: A mente humana, suas emoções e a tecnologia

A mente não dá conta de processar tudo o que ocorre à sua volta na mesma velocidade da tecnologia, por exemplo

Por O Dia

Maio/2017.A psicanalista Renata Bento no seu consultório na Barra da Tijuca..Foto: Selmy Yassuda
Maio/2017.A psicanalista Renata Bento no seu consultório na Barra da Tijuca..Foto: Selmy Yassuda -
Rio - A mente não dá conta de processar tudo o que ocorre à sua volta na mesma velocidade da tecnologia, por exemplo. Somos gente, e gente é diferente de máquina. Existe um mundo de emoções e sentimentos que se não observados acabam por gerar sintomas, sintomas esses que podem levar a uma estafa mental e a paralisação da produtividade, seja na vida pessoal, com a perda ou empobrecimento da criatividade, seja na vida profissional com expectativa de atender alta demanda. Como não pirar no mundo de hoje? Diria que há necessidade grande em saber sobre sí mesmo, e isso diz respeito em conhecer os próprios limites e até onde se pode ir e o que precisa melhorar. Até para delegar é importante conhecer quais são os seus gatilhos que fazem com que se desequilibre emocionalmente; pirar nesse sentido é se desequilibrar emocionalmente. Aprender a lidar com os limites internos e externos é um jeito de saber até onde se pode avançar, ou se precisa recuar, ou se precisa delegar. Da mesma forma que as pessoas atualmente cuidam da alimentação, da saúde física, é preciso que se crie o hábito de cuidar da saúde mental.

Todos nós somos iguais porque somos seres humanos, mas cada um é diferente como sujeito, que como tal, é singular com suas características e conflitos. Passar o tempo todo sentado na frente de um computador pode ser cansativo. Mas é importante que a própria pessoa tenha consciência disso. Uma atividade manual pode ser realizada com prazer por um grupo determinado de pessoas e isso pode ser um hobby, por exemplo. Mas para outro grupo de pessoa, não. Vai depender da personalidade de cada um, do que gosta de fazer, do que trás prazer à vida dela.

A auto cobrança, a crítica excessiva, a culpa, o perfeccionismo, tudo isso pertence ao mesmo núcleo. Núcleo esse que se formou ao longo do processo de amadurecimento de cada um, tem a ver como cada um introjetou as leis, as regras. Somos seres humanos e nossa marca primitiva como tal é o desamparo, somos frágeis e precisamos dos outros. Talvez algumas perguntas possam ajudar: porque me cobro tanto? Será que o que fiz não ficou bom? Esses questionamentos podem ajudar na reflexão e a diminuir a expectativa de não frustrar o outro e a diminuir o medo de críticas.

A mulher no intuito de corresponder a expectativa dela de “dar conta de tudo” ou do outro de “ser maravilhosa” no sentido de perfeita, acaba tendo um aumento significativo em sua demanda. Isso é extremamente cansativo. Existem mulheres totalmente estafadas e infelizes por nunca atenderem a uma expectativa imposta; isso tem a ver com raízes profundas de sua constituição. Aos poucos vão conseguindo dar prioridades e a buscar em sua volta uma rede cooperativa. Numa sociedade onde se precisa ser super tudo, é preciso entender que não é possível dar conta de tudo e que precisamos de ajuda.

As redes sociais podem ser observadas como um fenômeno da sociedade atual. Difícil constatar qual o grau de realidade no que se vê ali e é importante ter essa consciência.

Nas redes sociais parece tudo mais fácil que fora dela, se posta o que quer, existe conversa com pessoas que não se tem intimidade e que parecem intimas, pode se escolher a melhor foto, o melhor filtro,entre outras coisas. Aprender sobre os limites de uso e sobre o grau de realidade ali existente é fundamental para não sucumbir ao excesso. É saudável usar a rede social como mais uma ferramenta que pode ter seu valor, mas não se misturar a ponto de perder o contato com seu entorno e com suas próprias referências.
Renata Bento é psicóloga, especialista em criança, adulto, adolescente e família

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